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| Ela precisou ir ao deserto para descobrir o motivo de seu deserto interior. Foto: Divulgação |
É, eu escolhi mais um filme de jornalista. Cidade do Silêncio (Bordertown) 2006, baseado na história real de uma repórter, Lauren, que vai para Juarez, cidade na fronteira do México com os EUA, investigar o assassinato de centenas de mulheres. A região vive da exploração do trabalho delas em fábricas de artigos eletrônicos que, por serem produzidos ali, entram em um acordo de comércio, fazendo os donos das empresas cada vez mais ricos. O fato de elas estarem sendo assassinadas e naquele cenário é uma boa pauta, principalmente porque há a promessa de um cargo de correspondente internacional, caso trabalho seja bem feito.
Chegando na cidade Lauren reencontra o também jornalista Diaz (seu ex, porque sempre tem um ex na história) para ajudá-la. No início ele não quer que ela investigue para não correr riscos mas acaba envolvido pelas circunstâncias. Uma das vítimas, Ana, sobrevive e está disposta a identificar e denunciar os agressores. Todos acabam envolvidos e correndo risco de morte, porque uma verdadeira rede de interesses comerciais abafa os crimes.
É um filme que deixa bem claro como o drama da infância da jornalista (seus pais eram imigrantes ilegais e foram assassinados, sendo ela adotada por uma família americana) influencia nas suas decisões e a diferença de classes existente na própria cidade. Enquanto uma menina era violentada e enterrada viva, outra ganhava um baile de gala com direito ao show do Juanes. Faz pensar sobre a realidade e a desigualdade do nosso mundo, porque isso, com certeza, não existe apenas lá, sabemos que acontece aqui.
Mostra muitas cenas fortes e, para mim, até chocantes. Também tem uma cena muito peculiar, no estilo clipe musical, bem Jennifer Lopez: ela sai no corredor vazio da fábrica, depois de esculachar um gringo, então soa a sirene e as mulheres todas entram no corredor e a personagem se mistura a elas. Muito manjado, não gostei.
Quando a carreira se torna a vida
Já que todo mundo comenta o drama da história real, vou levar para o drama da história romanceada. Chamou a atenção quando a Lauren e Ana conversavam sobre suas vidas. A menina pergunta se a jornalista têm filhos e ouve a resposta negativa, justificada pelo trabalho. A garota insiste dizendo que a mãe dela também trabalha (e bastante, sendo praticamente escravizada nas fábricas) e têm filhos. Então, Lauren diz: "Eu tenho outro tipo de trabalho. Se chama carreira. Carreira é uma coisa que você deseja mais que tudo e depois que consegue vê que a vida perdeu o sentido". Ana hesita: "Não entendi" e a jornalista encerra dizendo "Então somos duas". É fácil perceber que ela se arrependeu de ter trocado Diaz pelo trabalho.
O jornalista, ex de Lauren, agora estava casado e com filhos e não deu atenção para o lado sentimental da história. Gostei disso. Na vida fora da tela deveria ser sempre assim também. Ele acaba sendo assassinado por causa da reportagem e ela decide viver em Juarez assumindo o jornal dele. A matéria, considerada maravilhosa, não foi publicada porque seu editor se rendeu à pressão política e corporativa, dizendo que "o entretenimento agora é a glória". Ele nem levou em consideração que a repórter arriscou a vida, no chamado "jornalismo gonzo", quando vivemos a situação que queremos retratar, não só para fazer a matéria, mas para pegar os assassinos.
Passa um pouco do limite? A polícia deve pegar o assassino, não o jornalista. Mas quando a polícia é corrupta? O jornal se torna o agente da justiça? Acredito que ela fez o que fez pelo envolvimento e identificação pessoal com os fatos e alcançou seu objetivo viva com muita sorte também. É um bom filme, para conhecer as realidades dos lugares e, principalmente, da manipulação da mídia em casos extremos, quando o dinheiro vale mais que a vida.



