quarta-feira, 13 de abril de 2011

Quando o dinheiro vale mais que a vida

Ela precisou ir ao deserto para descobrir o motivo de seu deserto interior.
Foto: Divulgação

É, eu escolhi mais um filme de jornalista. Cidade do Silêncio (Bordertown) 2006, baseado na história real de uma repórter, Lauren, que vai para Juarez, cidade na fronteira do México com os EUA, investigar o assassinato de centenas de mulheres. A região vive da exploração do trabalho delas em fábricas de artigos eletrônicos que, por serem produzidos ali, entram em um acordo de comércio, fazendo os donos das empresas cada vez mais ricos. O fato de elas estarem sendo assassinadas e naquele cenário é uma boa pauta, principalmente porque há a promessa de um cargo de correspondente internacional, caso trabalho seja bem feito. 

Chegando na cidade Lauren reencontra o também jornalista Diaz (seu ex, porque sempre tem um ex na história) para ajudá-la. No início ele não quer que ela investigue para não correr riscos mas acaba envolvido pelas circunstâncias. Uma das vítimas, Ana, sobrevive e está disposta a identificar e denunciar os agressores. Todos acabam envolvidos e correndo risco de morte, porque uma verdadeira rede de interesses comerciais abafa os crimes.

É um filme que deixa bem claro como o drama da infância da jornalista (seus pais eram imigrantes ilegais e foram assassinados, sendo ela adotada por uma família americana) influencia nas suas decisões e a diferença de classes existente na própria cidade. Enquanto uma menina era violentada e enterrada viva, outra ganhava um baile de gala com direito ao show do Juanes. Faz pensar sobre a realidade e a desigualdade do nosso mundo, porque isso, com certeza, não existe apenas lá, sabemos que acontece aqui. 

Mostra muitas cenas fortes e, para mim, até chocantes. Também tem uma cena muito peculiar, no estilo clipe musical, bem Jennifer Lopez: ela sai no corredor vazio da fábrica, depois de esculachar um gringo, então soa a sirene e as mulheres todas entram no corredor e a personagem se mistura a elas. Muito manjado, não gostei.

Quando a carreira se torna a vida

Já que todo mundo comenta o drama da história real, vou levar para o drama da história romanceada. Chamou a atenção quando a Lauren e Ana conversavam sobre suas vidas. A menina pergunta se a jornalista têm filhos e ouve a resposta negativa, justificada pelo trabalho. A garota insiste dizendo que a mãe dela também trabalha (e bastante, sendo praticamente escravizada nas fábricas) e têm filhos. Então, Lauren diz: "Eu tenho outro tipo de trabalho. Se chama carreira. Carreira é uma coisa que você deseja mais que tudo e depois que consegue vê que a vida perdeu o sentido". Ana hesita: "Não entendi" e a jornalista encerra dizendo "Então somos duas". É fácil perceber que ela se arrependeu de ter trocado Diaz pelo trabalho.

O jornalista, ex de Lauren, agora estava casado e com filhos e não deu atenção para o lado sentimental da história. Gostei disso. Na vida fora da tela deveria ser sempre assim também. Ele acaba sendo assassinado por causa da reportagem e ela decide viver em Juarez assumindo o jornal dele. A matéria, considerada maravilhosa, não foi publicada porque seu editor se rendeu à pressão política e corporativa, dizendo que "o entretenimento agora é a glória". Ele nem levou em consideração que a repórter arriscou a vida, no chamado "jornalismo gonzo", quando vivemos a situação que queremos retratar, não só para fazer a matéria, mas para pegar os assassinos.

Passa um pouco do limite? A polícia deve pegar o assassino, não o jornalista. Mas quando a polícia é corrupta? O jornal se torna o agente da justiça? Acredito que ela fez o que fez pelo envolvimento e identificação pessoal com os fatos e alcançou seu objetivo viva com muita sorte também. É um bom filme, para conhecer as realidades dos lugares e, principalmente, da manipulação da mídia em casos extremos, quando o dinheiro vale mais que a vida

terça-feira, 12 de abril de 2011

♩♫ "Do lado de cá..." ♩♫

A imagem nos permite a leitura da linguagem corporal. Foto: Divulgação

Quando escolhi assistir Frost/Nixon (2008) pensei que seria mais um filme sobre o Watergate e a mídia, como Todos os Homens do Presidente (1976). Não deixa de ser,  mas têm pontos de vista e objetivos diferentes: o primeiro é a causa e o segundo, consequência. Mas deixo Todos os Homens do Presidente para uma releitura quando assistir novamente. Fiquei feliz porque a obra envolve temas que gosto e conheço na prática como jornalismo, entrevista, televisão e, é claro, pressão. 

David Frost é retratado como um apresentador de TV sem muita credibilidade jornalística, até mesmo cômico. Trabalha na área do entretenimento e é bom no que faz, até que tem a ideia de entrevistar o ex-presidente Richard Nixon, longe de entrevistas desde a renúncia. Um programa biográfico que aos poucos entraria no tema chave, Watergate e um pedido de perdão aos Estados Unidos. Com todo seu charme e pensamento positivo, Frost começa o processo de preparo do programa com um produtor e mais dois jornalistas investigativos.

O levantamento de informações e a produção que é feita pelos jornalistas e o produtor é impecável. O sonho de qualquer pessoa que vai entrevistar alguém é ter toda aquela quantidade de informações para fazer perguntas, afinal seriam quatro programas de duas horas. Era preciso muito assunto e assunto era o que não faltava. Nixon receberia US$ 200.000 pela entrevista. O problema era que a produção independente não tinha o apoio de nenhuma rede David e estava com dificuldades para conseguir patrocínio. Os que apoiavam não passavam credibilidade para a grandeza do tema, o que irritava os colegas jornalistas, já que ele era visto como um artista e não um jornalista. 

"É preciso conhecer o inimigo"

Fica bem clara a separação do trabalho. Enquanto a produção vasculhava e levantava a vida de Nixon, Frost se preocupava em vender o programa e viver sua vida. Não se preparou adequadamente para a entrevista. Nas três primeiras gravações Nixon tomou conta e o desmontava com perguntas pessoais segundos antes de entrar no ar. Frost é revelado como a pessoa errada para fazer aquele trabalho. Apesar de um dos jornalistas ter dito "Ele tinha uma grande vantagem sobre a gente, ele entendia de televisão", ele não entendia de entrevistas difíceis, com pessoas de personalidade forte e que sabem tomar conta do espaço. 

Só no último programa, ao se ver desesperado, Frost estuda tudo o que foi pesquisado pelos colegas e se prepara decentemente para a batalha, como típico profissional de comunicação que trabalha melhor sob pressão. Neste ponto já não é mais apenas um trabalho. Finalmente colocou em prática "A Arte da Guerra". Ele teve a visão de que  o programa renderia muito dinheiro porque seria visto no mundo todo, mas demorou para perceber que um homem como Nixon não se entregaria fácil. E só assim conseguiu o famoso e exclusivo close no rosto derrotado de Nixon, depois de ser confrontado com provas e argumentos. É a imagem da derrota e a palavra dela, quando o ex-presidente diz em certo momento que "a TV e seus closes tem seus próprios significados".

"O holofote ilumina um só"

Frost/Nixon é um duelo de egos, do qual cada um sai um pouco vencedor e um pouco perdedor. Lendo sobre, descobri que muitos fatos foram omitidos ou distorcidos neste filme, assim como no que comentei anteriormente. Porém é cinema e o cinema, quando não se apresenta como documentário, não tem a obrigação com a fidedignidade da história. Os motivos são muitos, desde um final melhor ou um encaixe para que as coisas façam mais sentido, até mesmo a própria manipulação da opinião daqueles que acreditam em tudo que veem, apenas por ser verossímil. O estilo documentário no início e no fim ajuda a mascarar. 

O apresentador/artista aprendeu a lição de que uma boa entrevista exige preparo e conhecimento do assunto, principalmente quando tem peso, relevância. Nixon, reclamando do seu excesso de suor, que o fez perder o debate com Kennedy em 60, diz para David, "Você não sua, você nasceu para aparecer na TV". A televisão mostrou a imagem, não importavam as palavras. 

O que fica é a percepção de que qualquer pessoa com preparo e conhecimento do que funciona na TV pode alcançar seus objetivos com um pouco de técnica e prática. Prova disso são as campanhas políticas milionárias que elegem nossos governantes. Pagam bem para quem entende, a qualidade custa caro e todos sabem. Mas assim, fica fácil ser um Frost ou um Nixon, Basta escolher o lado. Eu já escolhi o meu. 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Uma dúvida a mais

A felicidade pode ser um fim de tarde à beira-mar. Foto: Divulgação

O primeiro filme que escolhi para inaugurar o blog é um que há algum tempo já queria assistir: "My sister's keeper" (algo como "Protetor de Minha Irmã", traduzido no Brasil para Uma Prova de Amor), de 2009. Se eu queria subjetividade e variedade de conclusões é o filme ideal.

Um bebê de proveta é concebido para doar-se à irmã com leucemia. Na família há uma mãe superprotetora, um pai anulado e dois filhos que não recebem a atenção merecida por todos viverem em função da criança doente. O filme se apresenta como uma mudança de foco, do doente para o saudável e mostra os conflitos de cada um. Cada parte é narrada por uma das personagens, permitindo que o espectador veja por outros lados.

A principal reflexão que propõe é: os pais têm o direito de invadir, usar, o corpo de um filho para salvar outro? O que chama a atenção na história é a consciência da menina de onze anos de que está sendo o instrumento que prolonga a vida da irmã e contrata um advogado para sua emancipação médica. Ela ama a família, quer ficar junto deles, só não quer mais sofrer intervenções cirúrgicas, o que levaria à redução do tempo de vida da outra. Não quero entrar na questão da legislação, mas depois de assistir confesso que fiquei na dúvida.

O amor, quanto entra na história, torna tudo subjetivo e complicado (ou simples, depende do ponto de vista, como tudo). Não sou a melhor pessoa para refletir sobre amor de irmão, porque sou filha única, considero minhas primas como irmãs (e elas também são filhas únicas), mas sei que a convivência e outras questões de relacionamento são diferentes e também nem tenho filhos. Mas o filme conseguiu me transportar e me prender pelo dilema.

Devemos considerar justa "toda forma de amor"?

A irmã mais nova não queria deixar de ajudar, não doando seu rim, pelo contrário, estava ajudando a mais velha a morrer, já que ela mesma não queria outra parte física da irmã. A chave do filme é que própria menina doente pediu para a irmã parar aquilo, "libertá-la". Não era preciso doar nada, o amor bastava. Porém somos levados a julgar, durante quase toda a exibição o ato daquela que se recusa a dar mais uma parte de si. Surge outra questão quando pensamos nas pessoas que sofrem a vida toda e são mantidas vivas pelo amor, pelo amor dos outros. O mesmo amor que as fazem continuar sofrendo com medicamentos, procedimentos, transfusões.

É preciso dizer para a mãe que a filha não quer mais viver, que "ela está pronta", mas até o último minuto  o  instinto materno, de manter a cria viva, a faz insistir em mais uma cirurgia. Ao se recusar a levar a filha do hospital para "morrer em casa" sem saber o que a menina e a família pensam, ela diz "Eu não ligo para a opinião de ninguém". O amor se apresenta egoísta. O conjunto causou mais um ponto de interrogação, dentre os tantos que já tenho. O amor não era "paciente, compassivo... tudo suporta"?

As cenas são típicas, sol quando está tudo bem, bolhas de sabão, de uma maneira meio dramática, e chuvas e sombras nas partes tristes e de conflito. Mas de uma maneira curiosa une o sol ao frio, mostrando a fragilidade em contraste com a força. A menina doente, em fase terminal, sentada na areia e embrulhada em um cobertor, enquanto os irmãos brincam e correm perto da água. Poderia ser triste, mas é uma cena que transmite felicidade. Como a felicidade pode ser simples.

Subjetivo demais

O certo, o humano é nos doarmos e fazer de tudo para ajudar o outro, o próximo (a definição de quem é o  nosso próximo também é subjetiva), mas e se o outro não quer ajuda? E se ele está em dúvida? Eu estou em dúvida com tudo o que este filme transmitiu. São tantos pesos a se colocar na balança para tirar uma conclusão do que é certo ou errado, porque é mais fácil não pensar nessas situações quando não somos obrigados.

O filme tem uma ótima proposta. É fácil se identificar com vários personagens, entrar na história por qualquer lado. Em meio às trilhas calmas, e em certo ponto melancólicas, somos levados a ver a história através da janela do quarto do hospital. Assistimos ao drama, literalmente. E fica mais uma dúvida: E se fosse eu que estivesse, como qualquer personagem, dentro da história? Assistir a este filme com a mente aberta faz pensar sobre a vida, a morte e as maneiras de amar. É difícil achar uma resposta para qualquer uma dessas dúvidas enquanto não se decide escolher pela razão ou pelo coração.

domingo, 10 de abril de 2011

Primeira fornada


A Fábrica de Imaginários é o cinema. A Fábrica de Imaginários sou eu. A Fábrica de Imaginários pode ser você. Tudo depende da maneira como nos posicionamos no processo de comunicação através das imagens e palavras. Nunca pensei que me interessaria pelo tema Cinema, muito menos pela Teoria do Imaginário e acabei fazendo minha monografia com eles: "A imagem e a atuação do jornalista na sociedade, com base na personagem do Lobo Mau, na animação infantil Deu a Louca na Chapeuzinho, sob a perspectiva da Teoria do Imaginário". 

Já que este é meu blog, informo em primeira mão (até porque ninguém mais sabe disso) que esta semana receberei a confirmação sobre a publicação da adaptação da minha mono, em forma de artigo, feita pela minha orientadora, Heloisa Juncklaus, na revista Sessões do Imaginário da PUC de Porto Alegre. Pelo que ela me falou, eles gostaram bastante e a publicação é quase certa. Estou na torcida para que se confirme. 

Tudo isso só me estimulou a pensar e escrever sobre Imaginário e Cinema. Mas não de uma forma científica ou especializada, já que não tenho conhecimento suficiente para isso, mas através da subjetividade, do contexto da entrelinha e da "entrecena". Gosto de pensar sobre a imagem, sobre o discurso. Quero passar uma leitura de filmes com a leveza de uma crônica e não a densidade de uma sinopse ou uma crítica. Mesclar à percepção ideias próprias sobre como a obra pode criar imaginários. 

Para entender melhor

Se você nunca ouviu falar sobre a Teoria do Imaginário já adianto que ela não é completamente definível, mas alguns autores e estudiosos se arriscaram. Selecionei alguns trechos mais simples de entender, na minha opinião, todos de Juremir Machado da Silva, em As Tecnologias do Imaginário (Ed. Sulina, 2006), já em relação ao cinema. 

O imaginário, de acordo com Silva (2006), “é um ponto de vista e uma vista de um ponto”. Ele explica que todo indivíduo submete-se a um imaginário preexistente e que este imaginário funciona como um reservatório de imagens, sentimentos, lembranças, experiências, visões do real e leituras da vida que, individuais ou sociais, definem um modo de ser, ver, sentir, agir e estar no mundo. O autor afirma que todo imaginário é real e todo real é imaginário. Diz ainda que o ser humano é movido pelos imaginários que engendra, apenas existindo no imaginário. Desta forma toda a trama da experiência imaginada pela história passa a fazer parte da realidade do ouvinte/espectador. 

Acabando a exibição de um filme, o espetáculo de cores e melodias, cada um segue seu próprio caminho. “O imaginário é o trajeto antropológico de um ser que bebe numa ‘bacia semântica’ (encontro e repartição das águas) e estabelece o seu próprio lago de significados” (SILVA, 2006, p. 11). Assim, um incontável número de pessoas cria realidades imaginadas com base na experiência assistida. Um mundo novo nasce em cada mente, com suas particularidades e significados, mesclando o que o indivíduo já tinha com o que ele acabou de receber. 

Ele conclui que “o imaginário surge da relação entre memória, aprendizado, história pessoal e inserção no mundo dos outros. Nesse sentido, o imaginário é sempre uma biografia, uma história de vida” (SILVA, 2006, p. 57). E completa definindo que “mesmo estimulado por tecnologias, o imaginário guarda uma margem de independência total, de mistério, de irredutibilidade, de fictício, de inútil, e nunca se reduz ao controle absoluto do agente tecnológico emissor” (SILVA, 2006, p. 57). É importante destacar que ele também diferencia imaginário de imaginado, explicando que imaginado é “uma projeção irreal que poderá se tornar real” e que imaginário “emana do real, estrutura-se como ideal e retorna ao real como elemento propulsor” (SILVA, 2006, p. 12). 

O que eu quero com isso? 

Como não poderia ser diferente, a ideia surgiu de um filme. Em "Julie & Julia" uma das personagens principais, diante de uma vida sem grandes emoções, desafia a si mesma a fazer em um ano 365 receitas de um livro da cozinheira preferida, uma por dia, postando no blog como foi o preparo, as dificuldades, se ficou bom ou ruim, etc. 

Um comentário de filme por dia: é o que vou tentar. Se não conseguir, compenso um dia com dois, mas esse é o objetivo. Vou ver o que estiver disponível nas minhas horas livres. Estou aberta a sugestões, mas provavelmente assistirei o que estiver passando nos canais que tenho da SKY, que já trazem bastante variedade. Porém, ocasionalmente e de acordo com o interesse, trarei filmes ainda em exibição nos cinemas e que alugarei em DVD (ainda não tenho blu-ray, ok? Ainda). 

Pretendo ver filmes de vários gêneros, de várias épocas. Já sei que não vou gostar de todos, mas vamos ver como sairá o comentário. Quero rever filmes que vi recentemente e também há muito tempo. O legal disso tudo será que em breve, não tão breve, terei assistido e refletido sobre o pensamento de centenas de fabricantes de imaginários. Afinal, para criar um filme, haja imaginário e imaginação!