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| A imagem nos permite a leitura da linguagem corporal. Foto: Divulgação |
Quando escolhi assistir Frost/Nixon (2008) pensei que seria mais um filme sobre o Watergate e a mídia, como Todos os Homens do Presidente (1976). Não deixa de ser, mas têm pontos de vista e objetivos diferentes: o primeiro é a causa e o segundo, consequência. Mas deixo Todos os Homens do Presidente para uma releitura quando assistir novamente. Fiquei feliz porque a obra envolve temas que gosto e conheço na prática como jornalismo, entrevista, televisão e, é claro, pressão.
David Frost é retratado como um apresentador de TV sem muita credibilidade jornalística, até mesmo cômico. Trabalha na área do entretenimento e é bom no que faz, até que tem a ideia de entrevistar o ex-presidente Richard Nixon, longe de entrevistas desde a renúncia. Um programa biográfico que aos poucos entraria no tema chave, Watergate e um pedido de perdão aos Estados Unidos. Com todo seu charme e pensamento positivo, Frost começa o processo de preparo do programa com um produtor e mais dois jornalistas investigativos.
O levantamento de informações e a produção que é feita pelos jornalistas e o produtor é impecável. O sonho de qualquer pessoa que vai entrevistar alguém é ter toda aquela quantidade de informações para fazer perguntas, afinal seriam quatro programas de duas horas. Era preciso muito assunto e assunto era o que não faltava. Nixon receberia US$ 200.000 pela entrevista. O problema era que a produção independente não tinha o apoio de nenhuma rede David e estava com dificuldades para conseguir patrocínio. Os que apoiavam não passavam credibilidade para a grandeza do tema, o que irritava os colegas jornalistas, já que ele era visto como um artista e não um jornalista.
"É preciso conhecer o inimigo"
Fica bem clara a separação do trabalho. Enquanto a produção vasculhava e levantava a vida de Nixon, Frost se preocupava em vender o programa e viver sua vida. Não se preparou adequadamente para a entrevista. Nas três primeiras gravações Nixon tomou conta e o desmontava com perguntas pessoais segundos antes de entrar no ar. Frost é revelado como a pessoa errada para fazer aquele trabalho. Apesar de um dos jornalistas ter dito "Ele tinha uma grande vantagem sobre a gente, ele entendia de televisão", ele não entendia de entrevistas difíceis, com pessoas de personalidade forte e que sabem tomar conta do espaço.
Só no último programa, ao se ver desesperado, Frost estuda tudo o que foi pesquisado pelos colegas e se prepara decentemente para a batalha, como típico profissional de comunicação que trabalha melhor sob pressão. Neste ponto já não é mais apenas um trabalho. Finalmente colocou em prática "A Arte da Guerra". Ele teve a visão de que o programa renderia muito dinheiro porque seria visto no mundo todo, mas demorou para perceber que um homem como Nixon não se entregaria fácil. E só assim conseguiu o famoso e exclusivo close no rosto derrotado de Nixon, depois de ser confrontado com provas e argumentos. É a imagem da derrota e a palavra dela, quando o ex-presidente diz em certo momento que "a TV e seus closes tem seus próprios significados".
"O holofote ilumina um só"
Frost/Nixon é um duelo de egos, do qual cada um sai um pouco vencedor e um pouco perdedor. Lendo sobre, descobri que muitos fatos foram omitidos ou distorcidos neste filme, assim como no que comentei anteriormente. Porém é cinema e o cinema, quando não se apresenta como documentário, não tem a obrigação com a fidedignidade da história. Os motivos são muitos, desde um final melhor ou um encaixe para que as coisas façam mais sentido, até mesmo a própria manipulação da opinião daqueles que acreditam em tudo que veem, apenas por ser verossímil. O estilo documentário no início e no fim ajuda a mascarar.
O apresentador/artista aprendeu a lição de que uma boa entrevista exige preparo e conhecimento do assunto, principalmente quando tem peso, relevância. Nixon, reclamando do seu excesso de suor, que o fez perder o debate com Kennedy em 60, diz para David, "Você não sua, você nasceu para aparecer na TV". A televisão mostrou a imagem, não importavam as palavras.
O que fica é a percepção de que qualquer pessoa com preparo e conhecimento do que funciona na TV pode alcançar seus objetivos com um pouco de técnica e prática. Prova disso são as campanhas políticas milionárias que elegem nossos governantes. Pagam bem para quem entende, a qualidade custa caro e todos sabem. Mas assim, fica fácil ser um Frost ou um Nixon, Basta escolher o lado. Eu já escolhi o meu.

Um comentário:
também fiquei interessado no filme
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